quarta-feira, 5 de maio de 2010

Você (Conto ficcional por Felipe Aguiar)

Você nasceu. Não do jeito como os outros nascem, num parto doloroso de uma mulher. Você nasceu do coração. Aliás, você já estava vivo. Você nasceu no coração dos seus pais. O processo não foi doloroso como o outro nascimento. Pelo contrário, foi cercado de amor e afeto.
Seus pais sempre foram objeto de admiração sua. E a cada dia, enquanto você amadurecia e crescia, mais admiração e respeito você tinha por seus pais. Eles eram sua fonte de carinho em todos os momentos. Desde os momentos agradáveis até os momentos mais tristes. Sua relação com eles crescia em tamanho e maturidade. O amor era alimentado diariamente, através de coisas simples como uma mensagem, uma hora dedicada de atenção a você, um presente... A vida parecia lhe ter presenteado com as melhores pessoas que se poderia pensar em ter como pais. Você sentiu coisas que nunca houvera sentido antes. Você fez coisas que nunca havia feito antes...
Você era suprido em todas as suas necessidades. Não digo as necessidades financeiras, porque, afinal, você não nasceu naturalmente, mas sim do coração. Este tipo de nascimento não leva em conta o mundo material à sua volta. Mas digo as necessidades emocionais. Todo ser humano tem necessidade de amar e ser amado. Isso é um fato que você sempre soube, mas nunca havia sido instigado a provar se essa verdade cabia em você ou não. Mas você foi. E provou que não era mais uma frase retórica de um livro de auto-ajuda. Era verdade pra você. Como você conseguiu viver tanto tempo sem essa relação entre vocês? Como você conseguiu passar tanto tempo sem esse glorioso nascimento?
Durante esse tempo você fez todo tipo de coisas com os seus pais. Vocês conversaram, vocês comeram, vocês sairam juntos, vocês estavam sempre juntos. Quando as pessoas queriam saber dos seus pais, vinham perguntar a você. E você achava isso o máximo. Você queria que isso acontecesse. Vocês estavam irrestritamente incluídos na rotina uns dos outros. Não havia como impedir que vocês pensassem a mesma coisa em muitos assuntos. Você recebeu uma grande carga de influência dos seus pais. Eles foram por todo esse tempo o seu modelo. Você viu neles a inspiração de que precisava para fazer as suas escolhas. Não que você fizesse as suas escolhas em todo o tempo. Muitas vezes eles fizeram escolhas por você. Muitas vezes você foi pego de surpresa por algo decidido por eles sobre você. Mas você adorava essas pequenas surpresas.
A comunicação era diária. E-mails, sms, telefonemas, bilhetes, recados... Tudo era usado para reiterar aquilo que, se não havia sido tido, seria dito a qualquer momento. Promessas foram feitas... Promessas foram cumpridas... Mais promessas foram feitas... E às vezes foram cumpridas... Promessas foram feitas...
O nível de envolvimento e afeição havia chegado ao seu ápice. Não porque chegou ao seu limite, mas porque daí pra frente não cresceu mais. E não cresceu ainda mais por conta de um alvo que havia sido alcançado. Planos e metas tinham sido traçados por você e por eles, mas você olhava para tudo com um olhar muito parcial. Você via tudo de uma maneira muito romanesca, muito idealizada. Muito platônica, se posso usar essa palavra. Se havia outro caminho não sei, mas a decisão havia sido tomada, e a relação estava pegando a próxima saída para outra estrada.
Você não havia sido informado sobre esse plano, ou essa nova rota. Mas, quando o seu pai ligou a seta, você imediatamente percebeu. Você acordou do seu sono e perguntou: Onde estamos? E nenhuma resposta chegou.
No meio do caminho, havia um grande evento. Um casamento. O casamento do ano... Aquele momento para o qual você e eles tinham criado expectativas grandiosas... Você parou, desceu do carro e admirou a cena. Aquele momento que você havia sonhado junto com eles por tanto tempo. Aquele momento que você havia feito de tudo, e além, para que acontecesse da maneira que você esperava. Aquele momento que custou a você muito de você mesmo... Aquele momento... passou.
Na volta pra casa, vocês foram em carros separados. Você voltou pra casa com estranhos conhecidos, que podiam ser tudo menos os seus pais. Eles haviam ido... Por outro caminho... Na direção oposta. Você fez de tudo que pode pra chamá-los de volta, pra chamar sua atenção, pra dizer que você queria ir com eles... mas foi em vão. Eles não lhe ouviram.
Você ficou preocupado, quis saber onde eles estavam, quis chamá-los de volta. Quis gritar por socorro... Mas era tarde demais. A sua única alternativa foi voltar pra casa e se acostumar com a nova situação. Chegou a hora de focar nos seus estudos, chegou a hora de ganhar o mundo. Você foi pra longe... Mas você manteve contato. E até tentou levar seus pais com você. Foi uma aventura incrível, e você voltou outra pessoa. Mais madura, mais ciente do mundo que lhe esperava. E eles estavam lhe esperando. Você pensou que finalmente vocês iam voltar a andar na mesma estrada. E até andaram por algum tempo. Você voltou a sentir tudo aquilo que sentia antes de eles pegarem o retorno. Você pensou que seria feliz novamente... Mas o ápice já tinha passado. E você estava prestes a se dar conta disso.
Você não disse, mas suas atitudes disseram tudo. Você ficou triste, e isso logo apareceu no seu rosto. Você não queria, mas uma conversa foi necessária. Por conta da sua timidez, palavras deixaram de ser ditas. Palavras foram lidas no seu rosto, mas não foram lidas nas suas palavras. A leitura nunca foi um ponto forte no seu pai, e embora sua mãe fosse muito mais proficiente na leitura, ela falava uma língua estrangeira. Você retomou o conhecido discurso do eu te amo, e seguiu em frente crendo que haveria uma mudança. E ela não veio. Você teve cada dia menos contato com seus pais. Eles estavam sempre ocupados, e você foi perdendo a vontade de tentar. Você tentou uma, duas, três vezes sem resposta e desistiu. Você ficou tão frustrado que não teve como evitar. Você se depara com uma música que diz tudo sobre você, mas tem receio de mostrá-la ao mundo:
Why (Por quê - F. Aguiar - 2007)
Nós costumávamos gastar tempo juntos
Andando do mesmo lado da estrada
Nós costumávamos perder tempo juntos
Falando bobagem sobre tudo
Nós éramos amigos mais chegados até que algo mudou
Você tem estado tão diferente
Você tem estado indiferente

Eu não posso fingir todos os meus sentimentos
Enquanto tudo está sendo vendido
Eu sinto falta de todas as palavras que ainda estão sendo ditas
Nós costumávamos fazer coisas juntos até que você foi tão longe
Você tem estado tão diferente
Você tem estado indiferente

Como você pôde deixar seu amor esfriar
Como pôde uma boa amizada envelhecer
Por que tudo que eu amo é tirado de mim
Por quê?

Por que todos conseguiam ver, mas ninguém conseguia decifrar a sua mente? Por que seu rosto insistia em se deixar levar pela força da gravidade e estava sempre triste? Aonde ia sua vida, e suas expectativas para o futuro? Onde estavam as promessas que foram feitas? Será que foram esquecidas?
Era dia das mães. Você se planejou, se preparou, comprou o presente e programou tudo. Estava tudo perfeito. Até que, quando você chegou em casa, seus pais não estavam lá. Você chorou, você se sentiu sozinho, você quis abandonar o mundo. Você pensou coisas que não devia ter pensado. Você aceitou as desculpas, mas já sabia que agora suas vidas estavam tomando direções opostas. Você passou a ver seus pais cada vez menos.Havia chegado a hora da independência? Havia chegado o momento em que você olha no retrovisor e não consegue mais ver o carro que estava ali do seu lado na direção oposta?
O momento passou. Você percebeu que não haveria mais jeito. Os seus pais já estavam longe demais. Não haveria como você pegar o próximo retorno para tentar buscá-los. Eles estavam andando numa velocidade maior do que a sua, e você não conseguiria alcançá-los. Eles tinham companhia. Eles não precisavam de você. No dia dos pais, você nem apareceu em casa. Não porque não quisesse, mas porque sabia que seria difícil terem um tempo pra você. E você chorou, como se isso tivesse lhe pego de surpresa. Não foi uma surpresa, você já sabia. Mas isso lhe deixou ainda mais triste.
Você precisava compartilhar isso com alguém. Você precisava experimentar de novo aquela velha frase se fazendo real em sua vida: Você precisava amar e ser amado. E você procurou quem você tinha antes de você nascer. E descobriu que eles haviam também nascido pra outras pessoas. Você não poderia exigir-lhes permanecer um feto para esperar você. Você nasceu e os deixou sozinhos. Não sozinhos, mas você se apegou aos seus pais de tal modo que esqueceu dos amigos. Então, era preciso criar novos. Era preciso dar à luz a alguém pra você. E isso aconteceu. Muitos não entenderam, outros não aceitaram, mas estava lá. Você podia contar com alguém novamente. Você podia ver o mundo de perto ao lado de outras pessoas. Não digo que você trocou seus pais pelos seus amigos, mas você preencheu seu tempo com quem queria lhe ajudar a preenchê-lo. Seus pais não responderam, porque não leram a sua carta cheia de perguntas.
Passou-se mais um ano, o Natal chegou e o Ano Novo trouxe com ele boas novidades. Você ia mais uma vez ver o mundo. Dessa vez o outro extremo. Seus pais não souberam, porque não leram o cartaz que você tinha colocado à sua porta. Não entenderam, porque não leram o seu bilhete.Não ajudaram, porque não quiseram. NÃO QUISERAM. Você chegou em casa e eles não estavam lá. Você procurou por eles e não os encontrou.
Quando você menos percebeu, seus pais morreram. MORRERAM. E você nem teve tempo pra se despedir. Você não teve tempo de se preparar. Você não teve tempo de responder as perguntas que você tinha feito para você mesmo. Como ia ser agora?
Você agora vive órfão. Não triste, mas órfão. Você vê a figura dos seus pais todas as noites. E várias vezes durante o dia você os vê na sua mente. Você é quase que assombrado pelo espectro deles. Você os reconhece de longe, mas eles não estão mais lá. Eles sentam agora no outro lado da fila. Eles têm outras ocupações. Você se pergunta: é pra sempre? Você às vezes chora, mas é consolado por aquele que te conhece desde antes de você nascer. É só Ele que consegue tirar o seu foco de tudo isso. É só ele que pode arrancar o sentimento de culpa do seu coração e lhe fazer ver que nem tudo depende de você. E, por mais que você se esforce em querer fazer as coisas voltarem, você não pode fazer tudo. Você não pode fazê-los nascer pra você de novo. Depende deles. E você chora ouvindo uma música.

Faithful (Fiel - B. Fraser - 2008)
Há distância no ar e eu não posso permitir
Eu aceno meus braços ao redor de mim e sopro com toda minha força
Eu não posso te sentir por perto, contudo eu sei que estás sempre aqui
Mas o conforto de ter você por perto é o que eu anseio

Quando não posso te sentir, Eu tenho aprendido buscar do mesmo jeito
Quando não posso te ouvir, Eu sei que Tu ainda ouves cada palavra que eu oro
E eu Te quero mais do que viver um outro dia
E à medida que eu espero por Ti talvez eu seja feito mais fiel

Toda a tolice do passado, embora eu saiba que está desfeita
Eu ainda sinto-me o culpado, ainda tentando acertar
Então eu sussurro Teu nome, deixo isso rolar em minha língua
Sabendo que és o único que me conhece
Tu me conheces

Mostre-me como eu devo viver isso
Mostre-me onde eu devo andar
Eu considero esse mundo como desperdício pra mim
Tu és tudo que eu quero
Tu és tudo que eu quero

Não há como voltar atrás. Agora, é seguir em frente, esperando no Criador. Esperando que um nascimento possa acontecer, ou que você nasça novamente, em outra pessoa, em outro lugar, em outro país, você ainda nao sabe.

Felipe Aguiar

Um comentário:

Lenise Freitas disse...

Gostei muito, o texto é muito bem construído e me trouxe muita inquietação, além daquela vontade de saber logo o final... Vou mandar um mail pra vc sobre algumas reflexões sobre paternidade e "Você".